Sem IPO, empresas intensificam venda de participação
- Seneca Evercore | NotĆcias
- 21 de jul.
- 3 min de leitura
Aporte de recursos com entrada de investidor privado Ć© alternativa ao mercado de capitais
Empresas brasileiras estão vendendo participações ou buscando outras soluções alternativas para driblar o hiato no mercado de capitais, que segue morno em um cenÔrio de juros altos e volatilidade, tornando mais estreitas as janelas para captação de recursos. O mercado privado tem conseguido absorver parte dessa necessidade de capital, em um momento em que ainda hÔ pouca visibilidade sobre a retomada do mercado acionÔrio.
Outras empresas de capital fechado, por sua vez, estĆ£o analisando a possibilidade de realizar um āIPO (oferta pĆŗblica inicial de aƧƵes, na sigla em inglĆŖs) reversoā para se tornarem listadas em meio a um mercado ainda adverso para novas listagens.
Além da entrada de investidor privado comprando fatia minoritÔria nas empresas com necessidade de capital, acionistas têm feito o papel de injetar recursos nas empresas. Foi isso o que ocorreu na IguÔ, do setor de saneamento, que fez um aumento de capital, em maio, de R$ 700 milhões, conforme informou o Pipeline.
Estudo da Seneca Evercore mostra que, no ano passado, foram realizados 78 investimentos minoritÔrios em empresas brasileiras, considerando as operações acima de US$ 10 milhões. Esse volume foi 26% acima da média da última década, e o melhor desde 2021. Neste ano, entre as operações realizadas, estÔ a aquisição de 40% da FS pela Amaggi e a captação US$ 100 milhões da Enter, conforme publicou o Valor.
Em volume financeiro, essas vendas de fatias minoritÔrias somaram cerca de US$ 19 bilhões, aumento de 18,75% em relação ao ano anterior e praticamente o dobro do visto em 2023.
āDiferentemente do IPO, que exige āroadshowā pĆŗblico, prospectos extensos e uma janela de mercado favorĆ”vel, o āprivate placementā [aporte privado] permite uma transação customizada, confidencial e Ć”gil: a empresa negocia bilateralmente com um ou poucos investidores, e a estrutura Ć© desenhada sob medida para o perfil do emissor e do investidorā, afirma o sócio da Seneca Evercore, Daniel Wainstein.
Neste ano, a B3 foi palco da primeira abertura de capital em quase cinco anos, com a estreia da Compass. A oferta ocorreu na esteira da necessidade da Cosan de levantar capital para equilibrar seu balanço. No entanto, apesar da quebra do jejum de IPOs, o ano não é apontado como sendo de retomada, dado o ambiente de volatilidade e juros altos. Projeções mais favorÔveis para aberturas de capital jÔ foram postergadas para 2027.
O responsĆ”vel pela Ć”rea de M&A (fusƵes e aquisiƧƵes, pela sigla em inglĆŖs) do Bank of America no Brasil, Diogo AragĆ£o, afirma que, sem o mercado pĆŗblico, empresas analisam captação no mercado privado. āEm mercado volĆ”til, as empresas nĆ£o deixam de captar, captam via M&Aā, diz AragĆ£o. Segundo ele, as gestoras de situaƧƵes especiais, chamadas no mercado de āspecial sitsā, vĆŖm ocupando esse espaƧo, visto que conseguem costurar estruturas que muitas vezes sĆ£o mais adequadas Ć s caracterĆsticas das companhias, que tĆŖm de estar, neste momento, capitalizadas.
JĆ” Roderick Greenlees, responsĆ”vel global pelo banco de investimento do ItaĆŗ BBA, afirma que o āprivate placementā tem sido mais observado em empresas de tecnologia e de alto crescimento, que precisam seguir investindo. O executivo observa que, em setores de infraestrutura, uma solução que tem sido utilizada pelas empresas Ć© a atração de sócios para projetos especĆficos.
Um caso foi o da Energisa, que fechou um acordo com o Itaú para a venda de uma fatia minoritÔria em sua subsidiÔria Denerge, numa operação estruturada de R$ 1,4 bilhão que vai ajudar a estrutura de capital do grupo.
Danilo Borges, do Bradesco BBI, afirma que, em alguns casos, empresas acabam aceitando atĆ© mesmo a venda do controle para atrair investidores e, com isso, seguir crescendo. āTem investidor que demanda o controleā, afirma o executivo. Borges destaca que as empresas com imóveis tambĆ©m estĆ£o se capitalizando com a venda desses ativos a fundos imobiliĆ”rios, com estruturas chamadas de āsale and lease backā, que se trata de vender e alugar na sequĆŖncia para seguir com o uso no dia a dia.
Borges, do BBI, lembra que outro movimento que tem sido notado em mais um ano adverso no mercado de capitais Ć© a busca pelo chamado āIPO reversoā, uma operação de M&A entre uma empresa fechada com uma de capital aberto - com a empresa final se tornando aberta. Nessa situação, diz o executivo, a empresa fica jĆ” preparada para uma oportunidade de captação mais Ć frente, com a melhora do mercado. Este foi o caso de Bradesco SaĆŗde e Odontoprev para criação da BradsaĆŗde, o maior IPO reverso jĆ” registrado atĆ© aqui, conforme publicou o Valor.
Publicado em 21/07/2026 e disponĆvel em:
